O que os números de 2023 realmente medem

Em 2023, a Anvisa concedeu 136.754 autorizações de importação excepcional de produtos à base de cannabis por pessoa física. Em 2015, foram 850. Os valores aparecem nas páginas 8 e 9 do Voto nº 101/2024 da Anvisa, documento apresentado na discussão sobre a regulação desses produtos. São números de anos específicos, que precisam acompanhar qualquer reprodução da série.

Esses registros não respondem quantas pessoas usam cannabis medicinal no Brasil hoje. O objeto contado é uma autorização administrativa, enquanto a pergunta do título trata de pessoas em tratamento. Para transformar uma medida na outra, seria necessário conhecer a metodologia de identificação de pacientes e saber quais autorizações resultaram em uso efetivo do produto durante o período analisado.

Autorizações e pacientes são medidas diferentes

Uma autorização concedida não demonstra, por si só, que o produto chegou ao destinatário ou permaneceu em uso. O documento consultado também não apresenta a série como uma contagem de pessoas únicas em tratamento. Por isso, os 136.754 registros de 2023 devem ser identificados como autorizações daquele ano, sem substituir essa palavra por pacientes ou usuários.

A diferença importa para quem lê uma notícia e busca entender se o tratamento já faz parte da rotina de muitas famílias. Um total administrativo ajuda a dimensionar a atividade daquele canal de acesso, mas não descreve o número de pessoas que continuam utilizando produtos, o tempo de acompanhamento ou os resultados obtidos por elas. Nenhuma dessas informações pode ser deduzida apenas do volume de pedidos autorizados.

Por que os números de farmácia não podem ser somados

O mesmo voto menciona mais de 95 mil pacientes assistidos por produtos disponíveis em farmácias. Esse trecho remete a divulgação setorial, sem apresentar uma metodologia que permita compará-lo diretamente à série de autorizações. A presença da cifra em um documento oficial não transforma automaticamente sua origem em levantamento oficial de pacientes.

Somar os dois valores criaria um total sem base comparável. Antes de fazer essa conta, seria necessário verificar o período de referência de cada medida, a definição de paciente e a possibilidade de a mesma pessoa aparecer nas duas bases. O texto do voto, isoladamente, não fornece esses elementos para calcular um número nacional de usuários distintos.

A série de importação tampouco mede, por si só, o atendimento por associações. Quem pretende apresentar um total de pacientes no país precisa explicar quais formas de acesso foram incluídas no levantamento e como eventuais duplicidades foram tratadas, em vez de juntar números produzidos para finalidades diferentes.

O crescimento que a série permite comparar

O voto registra 2.101 autorizações em 2017, 80.413 em 2022 e 136.754 em 2023. Comparar esses anos dentro da mesma série permite acompanhar a expansão do volume administrativo de importação individual. O próprio documento descreve mudanças e simplificações no procedimento ao longo do período.

Esses números não permitem identificar, sem informação adicional, quem passou de um canal de acesso para outro ou por que cada pedido foi realizado. Também não medem eficácia clínica nem indicam que um tratamento será adequado para determinada pessoa. Crescimento de autorizações, quantidade de pacientes e resultado de tratamento são perguntas diferentes, que exigem dados diferentes.

Como conferir uma estimativa que circula nas notícias

Ao encontrar uma cifra, procure a data do levantamento e a fonte original, além da palavra usada para definir o que foi contado. Uma estimativa de mercado pode ser útil quando explicita sua metodologia e seus limites, mas precisa continuar identificada como estimativa. Já uma autorização é um registro administrativo e deve conservar esse nome.

Para entender o próprio caminho de acesso, é mais útil distinguir o produto obtido por importação individual daquele adquirido em farmácia do que usar um total nacional como referência pessoal. O guia sobre importação pessoal e marco nacional explica essa diferença. A documentação e o acompanhamento clínico continuam sendo questões específicas de cada situação, que uma contagem de autorizações não esclarece.